O Colégio Cardinalício se reúne no Vaticano com Leão XIV para definir atenções e prioridades e orientar a ação do Santo Padre e da Cúria no futuro próximo. Os temas do encontro são quatro: a missão da Igreja no mundo de hoje, o serviço da Santa Sé, sinodalidade e liturgia. "Somos chamados, em primeiro lugar, a conhecer-nos e a dialogar para podermos trabalhar juntos ao serviço da Igreja."
Bianca Fraccalvieri - Vatican News
"Estou aqui para ouvir", disse o Papa aos cardeais de todo o mundo reunidos no Vaticano para o primeiro Consistório extraordinário convocado por Leão XIV. Trata-se de um dia e meio de reflexão e diálogo, que começou na Sala Nova do Sínodo com a meditação do Cardeal dominicano Timothy Radcliffe.
Inspirando-se no Evangelho do dia, em que Jesus vai ao encontro dos discípulos numa barca em meio a uma tempestade, o cardeal inglês afirmou que nós também vivemos em tempos de tempestades terríveis, marcados por uma violência crescente, desde o crime armado até a guerra. "A diferença entre ricos e pobres está cada vez maior. A ordem global nascida após a última guerra mundial está se desintegrando. Ainda não sabemos quais serão os resultados da Inteligência Artificial. Se ainda não estamos inquietos, deveríamos estar", afirmou.
A própria Igreja está sendo abalada por suas próprias tempestades, prosseguiu o cardeal, citando abusos sexuais e divisões ideológicas. "O Senhor nos chama a navegar nessas tempestades e a enfrentá-las com verdade e coragem, sem ficar timidamente esperando na margem. Se fizermos isso neste Consistório, veremos Ele vir ao nosso encontro. Se, ao contrário, ficarmos escondidos na margem, não O encontraremos."
A luz de Cristo: irradiação e atração
Tomando a palavra, já na Sala Paulo VI, o Santo Padre citou o primeiro parágrafo no documento conciliar Lumen gentium, com a visão da luz do Senhor que ilumina a cidade santa – primeiro Jerusalém, depois a Igreja – e, refletindo-se nela, permite a todos os povos caminhar no meio das trevas do mundo. A luz dos povos é Cristo. Para Leão XIV, os pontificados de São Paulo VI e São João Paulo II poderiam ser interpretados dentro desta perspectiva conciliar, que compreende a missão evangelizadora como irradiação da inesgotável energia emanada por Cristo. Já os Papas Bento XVI e Francisco resumiram essa visão numa palavra: atração. Não é a Igreja que atrai, mas a força do Amor de Deus que se fez carne em Jesus.
“Na medida em que nos amamos uns aos outros como Cristo nos amou, somos seus, somos a sua comunidade e Ele através de nós pode continuar a atrair. Realmente, só o amor é credível, só o amor é digno de fé.”
Todavia, a unidade atrai e a divisão dispersa, lembrou o Pontífice. E se a Igreja deseja ser verdadeiramente missionária, ou seja, capaz de testemunhar a força atrativa da caridade de Cristo, deve em primeiro lugar pôr em prática o único mandamento que Cristo deixou, de nos amarmos uns aos outros assim como Ele nos amou.
"Somos um grupo muito variado, enriquecido pelas nossas múltiplas proveniências, culturas, tradições eclesiais e sociais, percursos formativos e acadêmicos, experiências pastorais e, naturalmente, feitios e traços pessoais. Somos chamados, em primeiro lugar, a conhecer-nos e a dialogar para podermos trabalhar juntos ao serviço da Igreja. Espero que possamos crescer em comunhão para oferecer um modelo de colegialidade."
As atenções e prioridades da Igreja no futuro próximo
Este Consistório, portanto, é uma espécie de continuação do encontro que Leão XIV manteve com os cardeais no dia 10 de maio, dois dias após a sua eleição. Quatro são os temas a serem debatidos: Evangelii gaudium, ou seja, a missão da Igreja no mundo de hoje; Praedicate Evangelium, isto é, o serviço da Santa Sé, especialmente às Igrejas particulares; Sínodo e sinodalidade, instrumento e estilo de colaboração; liturgia, fonte e meta da vida cristã.
Por motivos de tempo e para favorecer um real aprofundamento, apenas dois deles - de acordo com a escolha dos cardeais - serão objeto de uma análise específica. A reflexão será guiada pela seguinte pergunta: Olhando para o caminho dos próximos um ou dois anos, que atenções e prioridades poderiam orientar a ação do Santo Padre e da Cúria sobre a questão?
“Estou aqui para escutar. Como aprendemos durante as duas Assembleias do Sínodo dos Bispos de 2023 e 2024, a dinâmica sinodal implica, por excelência, a escuta. Cada momento deste tipo é uma oportunidade para aprofundar o nosso comum apreço pela sinodalidade.”
A maneira de proceder, explicou o Santo Padre, consiste em escutar a mente, o coração e o espírito de cada um; escutar-se mutuamente; expressar apenas o ponto principal e de forma muito breve, de modo que todos possam falar. "Caríssimos, desde já, dou graças a Deus pela sua presença e pelos seus contributos. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, sempre nos assista."
Após o discurso de Leão XIV, os participantes deram início aos trabalhos, divididos em grupos.
Fonte/Vatican News






