Presente na Missa, na oração e na doutrina da Igreja, a Sagrada Escritura ocupa um lugar essencial na caminhada de fé e, ao lado da Tradição e do Magistério, ajuda a orientar a vida do católico.

Setembro é celebrado pela Igreja no Brasil como o Mês da Bíblia, um período dedicado a incentivar os fiéis a aprofundarem o contato com a Palavra de Deus. Mais do que uma tradição do calendário pastoral, a ocasião também ajuda a desfazer uma ideia que ainda circula com frequência: a de que o católico teria pouco apreço pelas Sagradas Escrituras.
A afirmação não corresponde à própria vida da Igreja. Basta acompanhar atentamente uma celebração, conhecer a oração católica ou observar a formação da doutrina cristã para perceber que a Bíblia está presente em praticamente todos os aspectos da fé.
A Missa é profundamente bíblica
Um católico que participa da Santa Missa entra constantemente em contato com a Sagrada Escritura.
Na Liturgia da Palavra, são proclamados textos do Antigo Testamento, dos Salmos, das cartas apostólicas e dos Evangelhos. Ao longo do ano litúrgico, essas leituras conduzem os fiéis pelos principais acontecimentos da História da Salvação. Não é um “acaso”. As mesmas leituras que o fiel ouve hoje em uma Missa aqui no Brasil, serão proclamadas também na Índia, ou na Nigéria. É a Igreja unida na Palavra.
Porém, a presença bíblica não termina quando acabam as leituras.
Diversas orações e respostas pronunciadas durante a celebração têm origem direta nas Escrituras.
Quando o fiel diz:
“Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”,
recorda as palavras do centurião que pediu a Jesus a cura de seu servo.
A aclamação “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo” remete ao profeta Isaías. E, pouco antes da Comunhão, ao proclamar “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, a Igreja faz ecoar as palavras de São João Batista.
Ou seja: mesmo quando não está diretamente lendo a Bíblia, o católico frequentemente reza com palavras que nasceram dela.
Uma Igreja que reza com as Escrituras
A Bíblia também ocupa lugar central na oração oficial da Igreja.
A Liturgia das Horas, rezada diariamente por sacerdotes, diáconos, religiosos e também por muitos leigos, é construída principalmente sobre os Salmos e outros textos bíblicos.
Durante séculos, monges, missionários, santos e comunidades cristãs meditaram a Palavra de Deus e fizeram dela alimento espiritual.
Por isso, a imagem de uma Igreja Católica distante da Bíblia não encontra respaldo quando se observa sua liturgia e sua espiritualidade.
No entanto, reconhecer que a Bíblia está presente na Igreja não significa que o fiel possa se contentar apenas em ouvi-la aos domingos.
A Igreja incentiva uma relação pessoal e frequente com as Escrituras.
Ler o Evangelho do dia, meditar um Salmo, estudar os livros bíblicos ou praticar a Lectio Divina são maneiras concretas de fazer com que a Palavra de Deus entre na rotina.
Nunca foi tão fácil ter acesso à Bíblia. Ela está disponível em diferentes traduções, versões digitais e aplicativos.
Mas ter acesso não significa conhecer.
É possível ter uma Bíblia na estante, outra no celular e ainda assim passar dias sem abrir nenhuma delas.
Ler a Bíblia é encontrar Cristo

Para o cristão, a Bíblia não é apenas um conjunto de histórias antigas ou um dos livros mais influentes da humanidade.
Ela é Sagrada Escritura.
Por meio dela, o fiel conhece a caminhada do povo de Deus, acompanha a História da Salvação e, sobretudo, aproxima-se de Jesus Cristo.
São Jerônimo, um dos maiores estudiosos das Escrituras na história da Igreja, deixou uma frase que resume essa importância:
“Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.”
A leitura bíblica, portanto, não deve ser apenas um exercício intelectual. Seu objetivo último é conhecer mais profundamente aquele que está no centro da fé cristã.
E onde entram a Tradição e o Magistério?
Para a Igreja Católica, a Bíblia não é interpretada de maneira isolada da comunidade cristã que a recebeu, preservou e transmitiu.
A fé católica reconhece uma relação inseparável entre Sagrada Escritura e Sagrada Tradição.
A Tradição não significa simplesmente conservar costumes antigos. Trata-se da transmissão viva da fé recebida dos Apóstolos e conservada pela Igreja ao longo das gerações.
Escritura e Tradição formam o único depósito sagrado da Palavra de Deus confiado à Igreja.
Já ao Sagrado Magistério, exercido pelo Papa e pelos bispos em comunhão com ele, cabe interpretar autenticamente essa Palavra.
E existe um ponto essencial: o Magistério não está acima da Palavra de Deus. Está a serviço dela.
Escritura, Tradição e Magistério, portanto, não disputam espaço, mas atuam de maneira profundamente relacionada na transmissão da mesma fé apostólica.
A Igreja ajudou a preservar as Escrituras
Também é importante lembrar que a Bíblia, tal como conhecemos hoje, não surgiu pronta.
Os livros do Novo Testamento foram escritos nas primeiras décadas do cristianismo e circularam inicialmente entre diferentes comunidades.
Foi dentro da própria vida da Igreja que, progressivamente, se reconheceu quais escritos fariam parte do cânon das Escrituras.
Durante séculos, antes da invenção da imprensa, monges e copistas reproduziram manualmente textos bíblicos, ajudando a preservá-los.
A Palavra também foi transmitida pela liturgia, pela pregação, pelas pinturas, pelos vitrais, pelos cânticos e pela catequese.
Em uma época na qual grande parte da população não sabia ler e os livros eram raros e caros, essas formas de transmissão possuíam enorme importância.
A Igreja, portanto, não “escondeu” a Bíblia dos fiéis, como às vezes se diz por aí. Pelo contrátio, ela guardou e transmitiu a Palavra de todas as formas possíveis ao longo da história.
Mais do que um livro, uma Palavra que ilumina a vida
Celebrar o Mês da Bíblia não significa simplesmente homenagear um livro.
É recordar que a Palavra de Deus deve ocupar um espaço verdadeiro na caminhada cristã.
É nela que o fiel volta a ouvir o chamado de Cristo, encontra esperança diante das dificuldades e aprende a enxergar a própria vida à luz da fé.
Uma Bíblia fechada pode permanecer por anos sobre uma estante.
Mas, quando suas páginas são abertas com fé, oração e desejo sincero de encontrar Deus, elas podem também abrir novos caminhos dentro de nós.
Texto diocesejacarezinho.org
Foto/Roberto Carlos
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