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Morte de Dom Osório: "Transformar a tragédia em caminho de conversão e renovação"

10 Jul
,
2026
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Um mês após a morte de Dom Osório Afonso, assassinado na sua residência em Quelimane, porque amava a vida, o Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), D. Inácio Saure, o Vice-presidente, Dom João Carlos e o arcebispo emérito da Beira, Dom Claudio Dalla Zuanna, encontraram-se com o Papa Leão XIV e outros organismos da Santa Sé: "O Santo Padre acompanha de perto a situação, e mostrou-nos que é possível transformar a tragédia num caminho de renovação, conversão e purificação".

Padre Bernardo Suate – Cidade do Vaticano

Para os Bispos da CEM, o Papa Leão tem mostrado esta proximidade e solidariedade não apenas pelo que tem escrito ou pronunciado, mas “por aquilo que sentimos durante o encontro, pois percebemos que há muita informação, há muito conhecimento sobre a realidade que vivenciamos em Moçambique”, enfatizaram os prelados.

A Igreja em Moçambique está, de facto, a viver com profunda dor e preocupação este acontecimento desde o primeiro momento em que se difundiu a notícia, na manhã do dia 6 de junho, e indicou o Bispo de Alto Molócuè, Dom Estevão Ângelo Fernado, como ponto de referência da Conferência, para acompanhar a situação de Quelimane, sublinharam os Bispos na entrevista.

Mas infelizmente, lamenta o Presidente da Conferência, até agora nada se sabe oficialmente do que aconteceu: “o que foi dito publicamente é que o bispo foi morto a tiro com uma arma de fogo, não uma pistola qualquer, mas arma de grande calibre, uma arma de guerra; que depois da morte, foi detido o Chanceler da diocese, grande colaborador do bispo; e que, ultimamente, foi também detido um outro sacerdote, Padre Celso, e foram apreendidos os telefones de Dom Osório e de Dom Estevão Ângelo Fernado, bispo nomeado como Administrador apostólico de Quelimane”.

Urgente conhecer autor(es), mandante(s) e motivações deste crime

Portanto, enfatizou Dom Inácio, tudo até este momento está nas mãos do SERNIC (Serviço Nacional de Investigação Criminal) “e nós, como Igreja, não temos nenhuma informação oficial de tudo quanto tem acontecido”. E para os prelados, as grandes perguntas, como: quem matou exatamente Dom Osório, quem foi o mandante e quais seriam as motivações do assassinato, nunca foram respondidas e nem explicadas à curiosidade das pessoas.

Os bispos falaram igualmente das informações que, ultimamente começam a sair através dos jornais e as redes sociais, sobre o processo de investigação, segundo as quais haveria problemas no contexto do governo da Igreja, com insinuações de como se tratasse exclusivamente de problema interno à Igreja.

Um contexto de violência que se vive no dia-a-dia

A morte de Dom Osório causou uma profunda dor em todo o povo, que ainda se questiona “como é possível que um pastor tenha sido assassinado na sua própria residência”, sublinhou ainda o arcebispo de Maputo, Dom João Carlos, enfatizando que todos esperam da Igreja alguma palavra de esperança. E para o Vice-presidente da CEM, é também frequente em Moçambique que, ainda durante processos de investigação em andamento, surjam situações onde os meios de imprensa, começam a insinuar ideias falsas, comprometendo a busca objectiva e serena da verdade.

Desafios internos à Igreja, credibilidade investigação séria que leve à verdade

Para o episcopado moçambicano, a morte de Dom Osório mostrou que também existem situações e desafios internos onde a Igreja precisa de entrar dentro de si e examinar-se. Um dos grandes desafios é o da coerência entre o que se proclama e o que se vive por parte de alguns sacerdotes e consagrados, assim como o aliciamento de candidatos ao sacerdócio por pessoas com posses supostamente como “padrinhos”, mas que acabam por condicionar o agir do futuro clérigo e até o do já clérigo.

O desafio da busca da verdade

Na memória do recente passado de Moçambique, os bispos recordam com pesar que investigações sobre assassinatos de grandes políticos, altos dirigentes e jornalistas, “quase nunca se chega a dizer a verdade completa, o que permitiria as pessoas estarem claras sobre quem cometeu o crime, quem foi o mandante e qual foi a responsabilidade penal que coube a esta pessoa, para uma verdadeira reconciliação da sociedade”.

Contudo, não se deve perder a esperança e, para Dom Saure, a mesma visita a Roma foi para reiterar que “queremos sentir-nos verdadeiramente acompanhados por toda a Igreja, para que seja toda a Igreja que procura respostas credíveis, porque verdadeiras, sobre este problema”.

Onde abundou o pecado superabundou a graça

Dentro da tragédia da morte de Dom Osório, para os Bispos Moçambicanos, existe já um caminho a seguir, que ganha novo impulso com esta visita, pois “percebemos que a Santa Sé, o Papa, e todos os seus colaboradores, acreditam que Moçambique pode crescer a partir desta realidade”, reitera o arcebispo de Maputo Dom João Carlos:

Podemos, de facto, chegar a um estágio em que começamos a perceber como é que o mal também funciona no nosso meio e assim nos poderemos acautelar, e sairmos mais fortificados perante o mal, ressalta o prelado.

Legado de D. Osório

Então, para os prelados moçambicanos, o passo a seguir será partilhar a experiência de Roma a nível da Conferência: um caminho (já iniciado) de busca da verdade, um caminho de esperança, um caminho de reconciliação, um caminho de purificação, para sarar a ferida. Certamente, este caminho nunca pode ser percorrido sozinho. É um caminho a fazer juntos, em sinodalidade, e a ser declinado em várias iniciativas nas dioceses, tudo para dar continuidade ao legado de Dom Osório, um verdadeiro pastor que morreu pregando o Evangelho e anunciando-o a todas as pessoas de boa vontade.

Igreja de mártires, robusta e firme

E, para Dom Inácio Saure, “Dom Osório foi assassinado porque amava a vida; Dom Osório é mártir da fé e, uma Igreja de mártires é uma Igreja robusta, uma Igreja firme... Assim está a ser vivido o evento da morte de D. Osório na Igreja que está em Moçambique, com muita esperança, porque o martírio, no fim de contas, é o que também fortalece a Igreja: com muita dor, mas fortalece a Igreja”.

Fonte/vaticannews

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